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março 24, 2009

Diz-me onde moras...

Esta pérola é do Miguel, e eu tiro o meu chapéu

Diz-me onde moras...

(texto de Miguel Esteves Cardoso)


Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada. Por
exemplo. Há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios ,
comprou um andar em Carnaxide. Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável,
tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide. Nunca
mais ninguém o viu.

Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia! Acontece o
mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide.
Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide. Um
palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do
que umas águas-furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço. Está-se
numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por
curiosidade, onde é que vivemos. O tamanho e a arquitectura da casa
não interessam.

Mas morre imediatamente quem disser que mora em
Massamá, Brandoa, Cumeada, Agualva-Cacém, Abuxarda, Alfornelos,
Murtosa, Angeja, Ranholas... ou em qualquer outro sítio que soe à
toponímia de Angola. Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no
Fogueteiro e na Cruz de Pau. (...) Ao ler os nomes de alguns sítios -
Penedo, Magoito, Porrais, Venda das Raparigas, compreende-se porque é
que Portugal não está preparado para entrar na CEE.

De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa
o Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?

Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não
é nada comparado com certos nomes portugueses. Imagine-se o impacte de
dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar. Veja-se a
cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a
menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata"
(Espinho).

E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde
mora, presentemente?", só para ouvir dizer que a senhora habita na
Herdade da Chouriça (Estremoz).

É terrível. O que não será o choque psicológico da criança que acorda,
logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade
de Vergão Fundeiro? Vergão Fundeiro, que fica no concelho de
Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda.

Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma
Vergadela (em Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo
Tirso? Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de
Arouca, de uma Vergadelas? É evidente, na nossa cultura, que existe o
trauma da "terra". Ninguém é do Porto ou de Lisboa.

Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a
nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem
apetecer mentir. Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela
indicação de naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do
bairro). É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza
a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and GoAway...").

Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo
como sendo originário de Filha Boa. Verá que não é bem atendido.(...)
Não há limites. Há até um lugar chamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima.

Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros. Há que dar-lhes nomes
civilizados e europeus, ou então parecidos com os nomes dos restaurantes giraços, tipo Não Sei, A Mousse é Caseira, ou Vai Mais um Rissól.(...)

Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso
que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água
(Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar
rebuçados em Bombom do "Bogadouro"¹, (Amarante), depois de ter parado
para fazer um chi-chi em Alçaperna (Lousã).

¹- Bogadouro é o Mogadouro quando se está constipado!!!

(Miguel Esteves Cardoso)

Publicado por ramos às março 24, 2009 05:28 PM

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